
Quando a experiência se transforma em ameaça, o profissional começa a diminuir o próprio currículo. O problema é que as empresas acabam descartando justamente o conhecimento de que mais precisam.
A experiência virou um risco de contratação?
O mercado de trabalho chegou a um paradoxo desconcertante: pessoas estão escondendo aquilo que passaram décadas construindo para conseguir uma oportunidade profissional.
Vivemos a era das vitrines: perfis cuidadosamente elaborados, conquistas celebradas, certificações exibidas. Nas redes sociais, todos parecem empenhados em demonstrar suas competências.
Mas, nos processos seletivos, uma pesquisa recente revelou um movimento inverso.
Segundo levantamento da plataforma americana Monster.com, repercutido pela Inc. Magazine e apresentado na edição de 3 de outubro de 2026 da newsletter The Update, da HSM Management, 43% dos candidatos a emprego nos Estados Unidos retiraram ou minimizaram pelo menos uma qualificação do currículo para não parecerem experientes demais para a vaga.
Outros 57% afirmaram que fariam o mesmo caso acreditassem que isso aumentaria suas chances de contratação.
Entre os aspectos omitidos estão experiências profissionais anteriores, datas de formação, anos de carreira, diplomas, realizações e posições de liderança.
Pense nisso por um instante: em um mercado que sempre estimulou as pessoas a acumularem conhecimento e demonstrarem competência, candidatos estão fazendo exatamente o contrário: demonstrar a experiência é um risco
O que aconteceu com a valorização da experiência?
Para os profissionais 50+, a pergunta é ainda mais incômoda. Afinal, boa parte das características que os candidatos estão escondendo corresponde justamente àquilo que construíram ao longo de décadas de trabalho.
A pesquisa americana aponta três receios frequentemente atribuídos aos candidatos considerados overqualified:
- Podem ficar entediados e deixar a empresa assim que surgir uma oportunidade melhor.
- Podem exigir uma remuneração superior à prevista para a posição.
- Podem representar uma ameaça à autoridade ou à segurança do gestor.
São justificativas que merecem reflexão. Até porque nenhuma delas, isoladamente, demonstra incapacidade para exercer a função.
Ainda assim, a percepção de que experiência excessiva representa um problema ajuda a explicar por que tantos profissionais estão reduzindo voluntariamente a própria apresentação.
E no Brasil, isso também acontece?
No Brasil, esse fenômeno ganha uma dimensão adicional: o etarismo. Dados reunidos em diferentes levantamentos nacionais ajudam a compreender o cenário:
- PwC/FGV: 70% das empresas pesquisadas associam profissionais mais velhos a custos mais elevados, enquanto mais de 60% acreditam que eles apresentam dificuldades de adaptação a mudanças.
- Michael Page, Talent Trends 2025: 41% dos profissionais brasileiros entrevistados relatam discriminação etária no trabalho, acima da média global de 36%.
- EY e Maturi: levantamento divulgado pelas instituições aponta restrições à contratação de profissionais acima dos 50 anos em 78% das empresas pesquisadas.
- Talento Sênior e Vagas: em estudo com 6.200 candidatos e 300 empresas, 21% dos profissionais de RH admitiram a eliminação de candidatos mais velhos, enquanto 70% dos candidatos relataram ter sido questionados sobre idade durante entrevistas.
Os números não são diretamente comparáveis pois resultam de pesquisas com metodologias e amostras distintas. Mas apontam para uma questão comum: a idade continua influenciando decisões profissionais, muitas vezes independentemente da competência demonstrada.
Nos Estados Unidos, o autoapagamento aparece associado ao receio de parecer qualificado demais. No Brasil, para muitos profissionais maduros, experiência e idade se tornam dois motivos simultâneos de suspeição.
É o paradoxo do profissional que acumulou conhecimento para se tornar mais valioso, mas precisa esconder parte desse patrimônio para continuar sendo considerado empregável.
O autoapagamento brasileiro tem duas camadas
Uma das perguntas que mais recebo de profissionais maduros é: devo retirar minha idade do currículo?
A resposta exige alguma franqueza. A idade pode ser omitida formalmente, mas os dados sobre entrevistas indicam que ela acaba sendo investigada durante o processo seletivo.
O problema, portanto, não está apenas na informação apresentada pelo candidato. Está no significado que o recrutador atribui a ela.
O fenômeno também aparece no chamado rebaixamento voluntário.
Levantamentos da Luandre indicaram que 90% dos candidatos consultados aceitariam remuneração inferior para retornar ao mercado e 85% aceitariam uma posição hierarquicamente menor. Pesquisa divulgada pela FolhaPE apontou que 82% dos profissionais já aceitaram ou aceitariam uma função abaixo de sua qualificação.
O dado mais desconcertante é que, no mesmo levantamento, 54% das empresas afirmaram que não contratariam um profissional qualificado demais para uma vaga inferior.
Temos, então, uma situação difícil de justificar racionalmente: o candidato reduz suas expectativas salariais, aceita responsabilidades menores e minimiza suas qualificações, mas pode continuar sendo rejeitado justamente por possuir experiência demais.
O profissional faz sua parte para caber na vaga. A empresa, muitas vezes, não faz o mesmo esforço para reconhecer o valor que ele pode entregar.
O autoapagamento deixa de ser uma escolha individual e passa a ser um sintoma de um mercado que penaliza determinados atributos profissionais.
O gargalo do conhecimento mudou de lugar
A reflexão apresentada por Adriana Salles na The Update, da HSM Management, vai além do recrutamento e oferece uma segunda camada para essa discussão.
Durante muito tempo, o principal obstáculo às decisões era o acesso ao conhecimento. Informação era escassa, cara e concentrada.
A inteligência artificial alterou profundamente esse cenário. Hoje, organizações e profissionais conseguem acessar volumes extraordinários de informação em poucos segundos.
Mas existe um novo gargalo: estar disposto a aceitar evidências que contrariam nossas crenças, interesses ou modelos mentais.
Na literatura, diferentes conceitos ajudam a compreender esse comportamento, entre eles resistência a evidências, anti-intelectualismo, ocultação de conhecimento (knowledge hiding) e raciocínio motivado (motivated reasoning).
No ambiente corporativo, isso pode se manifestar de várias formas: gestores que desconsideram dados que desafiam suas convicções, organizações que resistem a rever práticas ultrapassadas e processos seletivos que reproduzem estereótipos mesmo quando as evidências apontam em outra direção.
A discussão sobre profissionais 50+ se encaixa nesse contexto.
Se a empresa acredita que pessoas mais velhas são necessariamente menos adaptáveis, mais caras ou menos abertas à tecnologia, poderá interpretar qualquer evidência de competência como uma exceção, e não como uma oportunidade de rever sua premissa.
A inteligência artificial pode aperfeiçoar a triagem de currículos, mas não corrige automaticamente os preconceitos embutidos nos critérios de seleção.
Tecnologia sem revisão dos critérios de decisão pode apenas tornar o preconceito mais eficiente.
O custo empresarial de desperdiçar experiência
O autoapagamento ocorre em um mercado de trabalho que enfrenta dificuldades para preencher determinadas posições, apesar dos indicadores favoráveis de emprego.
O Brasil registrou taxa de desocupação de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, segundo o IBGE, enquanto levantamentos empresariais apontam dificuldades persistentes de contratação.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre vagas fantasmas, anúncios de posições que não chegam efetivamente à contratação e a deterioração da confiança entre empresas e candidatos revela disfunções dos dois lados do mercado.
Nesse cenário, o profissional 50+ que reduz suas qualificações para atravessar os filtros de recrutamento sequer tem garantia de que encontrará uma oportunidade real.
E há outro movimento importante: os profissionais maduros estão buscando alternativas.
Em 2024, pessoas com 60 anos ou mais representavam 24,4% dos brasileiros ocupados nessa faixa etária, segundo dados do IBGE. Levantamento da Nexus apontou também uma participação expressiva do empreendedorismo entre os trabalhadores 60+.
Parte dessa movimentação pode refletir escolha, autonomia e desejo de reinvenção. Outra parte merece ser examinada à luz das barreiras de acesso ao emprego formal.
Quando a contratação tradicional não reconhece o valor da experiência, o mercado perde profissionais e esses profissionais passam a procurar outros caminhos para continuar produzindo.
A consequência ultrapassa a dimensão individual.
Perdem-se repertório, memória organizacional, capacidade de antecipar riscos, conhecimento tácito e oportunidades de aprendizagem entre gerações.
É uma perda particularmente relevante em um país cuja estrutura etária está mudando rapidamente.
Longevidade exige outra arquitetura de gestão
A longevidade não está apenas ampliando o número de consumidores maduros. Está transformando a composição da força de trabalho, a duração das trajetórias profissionais e a própria relação entre idade e produtividade.
Segundo projeções demográficas citadas por Felipe Calbucci, CEO Latam da TotalPass, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 16,6% em 2025, podendo alcançar 37,8% em 2070.
Esses números deveriam estar presentes nas discussões estratégicas dos conselhos de administração e das lideranças executivas.
A questão não é simplesmente criar programas de inclusão para profissionais maduros. É rever como a organização identifica, preserva, integra e renova seu capital geracional.
Nesse contexto, proponho que a experiência acumulada seja tratada como um ativo estratégico, sujeito à mesma atenção dedicada aos demais recursos que sustentam a competitividade.
O ROEx, Retorno sobre o Repertório Acumulado, é uma contribuição nessa direção: uma perspectiva para reconhecer o impacto da experiência na geração de resultados, na mentoria, na inovação e na qualidade das decisões.
A gestão da longevidade precisa avançar da sensibilização para a governança, com indicadores capazes de demonstrar se a organização está efetivamente aproveitando o conhecimento disponível em suas diferentes gerações.
Não basta declarar que a diversidade etária é importante. É preciso observar quem é contratado, quem permanece, quem é promovido, quem participa das decisões e quem tem seu conhecimento transmitido.
A pergunta que fica para líderes e RH
O autoapagamento não deveria ser interpretado como uma deficiência dos candidatos e sim como um sinal de alerta sobre o funcionamento do mercado de trabalho.
Quando profissionais experientes começam a esconder diplomas, reduzir cargos, omitir realizações e diminuir expectativas para parecerem mais aceitáveis, alguma coisa está profundamente equivocada nos critérios de empregabilidade.
A resposta não está em pedir que a experiência se desculpe por existir.
Está em avaliar competências e resultados, questionar estereótipos, desenvolver lideranças capazes de trabalhar com diferentes gerações e reconhecer que a maturidade pode representar uma vantagem competitiva.
Afinal, em um mundo no qual a inteligência artificial amplia o acesso à informação, o diferencial humano pode estar cada vez mais na capacidade de interpretar, contextualizar e transformar conhecimento em decisões melhores.
E isso exige repertório.
A pergunta que deixo aos gestores e profissionais de RH é simples: sua empresa está procurando os melhores profissionais disponíveis ou profissionais que pareçam menos experientes para não ameaçar os modelos de gestão existentes?
Porque, quando uma organização faz alguém esconder aquilo que sabe, ela não está apenas desperdiçando uma carreira.
Está desperdiçando uma oportunidade de futuro.
Fran Winandy é psicóloga, gerontóloga, mestre em Administração de Empresas, conselheira certificada em ESG, professora de treinamento executivo e arquiteta de governança de capital geracional. É autora de Etarismo, um novo nome para um velho preconceito e cocriadora do ROEx, Retorno sobre o Repertório Acumulado.
Este artigo foi inspirado pela edição de 3 de outubro de 2026 da newsletter The Update, da HSM Management, especialmente pela reflexão de Adriana Salles sobre o autoapagamento de qualificações, a resistência ao conhecimento e as relações entre experiência profissional e longevidade.