A notícia de ontem derrubou as plataformas. O estrago dentro das empresas continua de pé.

Na sexta-feira, 25 de setembro, o governo federal publicou uma Medida Provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, as chamadas bets. A medida determina o fim das operações das plataformas autorizadas e estabelece que os sites e aplicativos deverão sair do ar a partir de 6 de outubro. Os apostadores terão até 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores que ainda estiverem nas plataformas.

A MP tem força de lei a partir da publicação, mas ainda passará pelo Congresso e poderá sofrer alterações ou perder eficácia. Enquanto isso, uma coisa já é certa: o problema que chegou às empresas não desaparece junto com as plataformas.

Porque as dívidas já contraídas continuam existindo. Os empréstimos feitos para tentar recuperar perdas continuam existindo. Os cartões estourados, os pedidos recorrentes de adiantamento, a queda de concentração, os conflitos familiares, a ansiedade provocada pelo endividamento e, em alguns casos, o comportamento compulsivo continuam existindo.

As bets podem sair. A conta fica.

O problema não termina quando o aplicativo sai do ar

Nos últimos meses, esse tema chegou até mim por diferentes caminhos. Gestores me contaram sobre funcionários talentosos, mas cada vez mais desatentos, pedindo adiantamento de salário e aparentemente afogados em dívidas que não conseguiam explicar. Lideranças divididas entre aplicar uma medida disciplinar ou tentar acolher um problema que não sabiam sequer como nomear.

Também ouvi relatos de jovens que interromperam planos de estudo ou adiaram projetos porque parte da renda estava indo, mês após mês, para as apostas.

E uma frase apareceu mais de uma vez: “Ele prefere apostar a trabalhar.”

Será mesmo essa a melhor forma de entender o que está acontecendo? Ou estamos diante de um fenômeno muito mais complexo, que chegou ao mundo do trabalho antes que muitas empresas tivessem repertório para lidar com ele?

Um estudo do Sicredi divulgado nesta semana, encontrou inadimplência 40% maior entre associados que haviam apostado online, em uma amostra de 1,3 milhão de pessoas com crédito ativo. O estudo também identificou relação entre frequência e volume das apostas e aumento da inadimplência.

Não estamos mais falando apenas de entretenimento ou de uma escolha de consumo. Estamos falando de dinheiro, saúde, comportamento, produtividade e futuro.

E agora, quem cuida da dívida?

Essa é a pergunta que, para mim, deveria entrar na agenda dos gestores.

Porque uma empresa não tem que pagar a dívida de um funcionário. Também não cabe ao RH assumir o papel de banco ou de terapeuta. Mas isso não significa que a organização possa ignorar os efeitos que o endividamento produz no trabalho.

A pessoa continua chegando à empresa com as dívidas que acumulou, mesmo que a plataforma responsável por parte delas deixe de existir.

E há um detalhe importante: compulsão não obedece a cronograma governamental.

O Ministério da Saúde percebeu isso antes mesmo da proibição. Em março, lançou, pelo Meu SUS Digital, um serviço gratuito e confidencial de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. A procura foi maior do que a capacidade inicial e, em agosto, o serviço foi ampliado para até 100 mil teleatendimentos mensais.

Esse atendimento precisa continuar sendo demandado e divulgado. Assim como os grupos de apoio, entre eles os Jogadores Anônimos, que seguem acolhendo pessoas que já reconhecem que perderam o controle sobre o jogo. Reportagem da Agência Brasil publicada em setembro mostra que esses grupos já vêm recebendo pessoas cada vez mais jovens.

A necessidade de cuidado não termina porque uma plataforma foi fechada.

E existe ainda uma questão que merece acompanhamento: especialistas e representantes do setor ouvidos pela imprensa alertaram que um banimento abrupto pode favorecer a migração de parte dos apostadores para plataformas clandestinas, nas quais não há os mesmos mecanismos de fiscalização, proteção ao consumidor ou controle. É um risco apontado no debate atual, não uma consequência inevitável.

Ou seja, o problema pode mudar de endereço sem desaparecer.

O que uma empresa pode fazer agora?

Talvez o primeiro passo seja abandonar a ideia de que educação financeira se resolve com uma palestra anual.

Se há funcionários chegando ao trabalho endividados, pedindo adiantamentos ou apresentando mudanças importantes de comportamento, a organização precisa ter algum repertório para reconhecer sinais de alerta e saber para onde encaminhar cada situação.

Isso pode significar oferecer orientação financeira, facilitar o acesso a programas de renegociação, ampliar o conhecimento sobre crédito e juros, treinar lideranças para acolher sem diagnosticar e criar caminhos seguros para que a pessoa procure ajuda sem medo de exposição.

Não significa retirar do indivíduo a responsabilidade por suas escolhas. Significa reconhecer que as consequências dessas escolhas também podem chegar ao ambiente de trabalho.

E talvez seja justamente aqui que RH e liderança tenham uma oportunidade de fazer diferente.

Em vez de esperar que a dívida apareça como problema de produtividade, absenteísmo ou indisciplina, por que não tratar saúde financeira como parte de uma agenda mais ampla de saúde, desenvolvimento e sustentabilidade da força de trabalho?

E há uma questão geracional nessa história

Diante de tudo isso, seria muito fácil concluir que temos uma geração que quer dinheiro rápido, não tem paciência para construir carreira e prefere apostar a trabalhar.

Eu não compraria essa explicação.

O fenômeno das bets foi construído por uma combinação de tecnologia, publicidade, gamificação, gratificação instantânea, facilidade de acesso e vulnerabilidade financeira. A exposição começa cedo e chega ao jovem muito antes de ele entrar no mercado de trabalho.

Transformar isso em defeito de uma geração é simplificar demais o problema.

Mas existe uma pergunta geracional que considero muito mais produtiva: o que uma geração pode ensinar à outra sobre dinheiro, trabalho e futuro?

Quem passou décadas administrando a vida financeira em ambientes de inflação alta, juros elevados, crises econômicas e diferentes ciclos profissionais acumulou repertórios que podem ser valiosos para quem está começando.

Não porque pessoas mais velhas tenham todas as respostas. Mas porque experiência também é capital.

Talvez uma das respostas esteja justamente em colocar esse repertório em circulação: conversas intergeracionais sobre dinheiro, mentoria, aprendizagem compartilhada, educação financeira contextualizada e troca de experiências sobre carreira, consumo, risco e planejamento.

É nesse território que entram o Capital da Maturidade e o ROEx, o Retorno sobre o Repertório Acumulado.

Não como nostalgia, e sim como estratégia.

As bets podem sair. A pauta fica.

A MP de ontem muda radicalmente o cenário das apostas no Brasil. Mas não encerra a discussão.

Pelo contrário. Agora começa uma segunda conversa, talvez ainda mais importante para as empresas: o que fazemos com as consequências de um fenômeno que já afetou a vida financeira, profissional e familiar de tantas pessoas?

O governo está tentando fechar a torneira e, simultaneamente, criar mecanismos para renegociar o estoque de dívidas das famílias. No mesmo dia da MP que proibiu as bets, foi publicada outra medida provisória criando o Desenrola Brasil 3.0, voltado à renegociação de dívidas de pessoas físicas inadimplentes.

As empresas também podem fazer sua parte.

Não assumindo dívidas que não são suas, mas criando condições para que o trabalhador consiga reorganizar sua vida financeira antes que o problema se transforme em um problema de carreira.

Porque, no fim, essa conversa não é apenas sobre bets. É sobre como as organizações cuidam do capital humano que têm hoje e do capital geracional de que vão precisar amanhã.

E quero te convidar a refletir e, se puder, deixar seus comentários na publicação deste artigo lá no meu LinkedIn.

Sua empresa já precisou lidar com um funcionário endividado por apostas? Como vocês trataram a situação?

E agora que as plataformas estão sendo retiradas do ar, o que você acredita que RH e lideranças deveriam fazer com o problema que permanece?

Quero ouvir experiências reais, inclusive as que discordam de mim!

Fran Winandy, Arquitetura do Capital Geracional.