
O que o envelhecimento tem a ver com a física?
Quando pensamos em física, costumamos imaginar partículas colidindo, estrelas, buracos negros, efeitos quânticos. Coisas prá lá de distantes da nossa vida cotidiana. Mas a física é muito mais do que isso, e um grupo de cientistas resolveu fazer uma pergunta que pode mudar a forma como entendemos o envelhecimento:
e se as mesmas leis que regem o universo também regessem o nosso corpo ao longo do tempo?
Essa pergunta deu origem a um campo novo e ainda pouco conhecido: a Gerofísica, ou a física do envelhecimento.
O que é a Gerofísica?
A Gerofísica é um campo interdisciplinar emergente que aplica princípios da física teórica, como a termodinâmica, a teoria dos sistemas dinâmicos, a ciência das redes e os processos estocásticos, para compreender os mecanismos fundamentais do envelhecimento biológico.
Parece complicado, mas não é! Em linguagem simples: em vez de apenas descrever o que muda no corpo com o passar dos anos, como a biologia tradicional faz ao listar alterações celulares, hormonais e funcionais, a Gerofísica quer descobrir as leis que estão por trás dessas mudanças. Da mesma forma que a física encontrou leis universais para o movimento e a gravidade, ela quer encontrar as leis do envelhecimento.
O objetivo, nas palavras dos pesquisadores, é construir modelos preditivos que conectem as mudanças entre diferentes escalas biológicas, do nível subcelular ao organismo inteiro, e entre diferentes escalas de tempo, da renovação celular à duração de uma vida. Hummm, agora complicou, vamos por partes!.
Envelhecer como um processo físico
A grande virada de paradigma proposta pela Gerofísica é tratar o envelhecimento não apenas como um fenômeno biológico, mas como um processo físico regido por leis universais, as mesmas que explicam a produção de entropia ou as transições de fase.
Pense assim: uma xícara de café quente esfria até chegar à temperatura ambiente. Uma casa, sem manutenção, vai se deteriorando. Um castelo de areia se desfaz com o tempo. A física chama isso de entropia: a tendência natural dos sistemas de caminharem da ordem para a desordem.
O corpo humano é um sistema altamente organizado que gasta energia constantemente para manter essa ordem. A Gerofísica propõe que o envelhecimento é, em parte, o resultado dessa batalha contra a entropia. E o mais incrível é que essa batalha segue regras que podem ser descritas matematicamente!
Vamos voltar um pouquinho no tempo para compreender de onde isso tudo surgiu?
Uma conferência histórica em Singapura
Em março de 2025, 160 especialistas em biologia, física, ciências da computação e medicina se reuniram em Singapura para a primeira conferência mundial sobre Gerofísica, organizada pela Universidade Nacional de Singapura. Durante dois dias, 31 palestrantes apresentaram suas pesquisas em sessões dedicadas a explorar como as leis físicas poderiam unificar o estudo do envelhecimento.
O relatório do encontro foi publicado recentemente no periódico científico Aging e resume as principais ideias que emergiram do evento.
As ideias que nasceram do encontro
Entre os modelos apresentados neste encontro, alguns merecem destaque porque ajudam a entender como a física pode iluminar o envelhecimento:
O equilíbrio entre dano e reparo. O pesquisador Uri Alon, do Instituto Weizmann de Ciência, apresentou um modelo que descreve o envelhecimento como o resultado do equilíbrio entre a produção de danos no organismo e a capacidade de eliminá-los. É como uma casa que acumula desgaste: enquanto os reparos acompanham o desgaste, a casa se mantém; quando os reparos deixam de dar conta, a deterioração acelera. O modelo explica padrões conhecidos do envelhecimento, como o aumento exponencial da mortalidade com a idade.
O envelhecimento como transição de fase. Outra ideia poderosa interpreta o envelhecimento como uma transição de fase, semelhante à água que se transforma em gelo ou em vapor. Nessa visão, as redes de regulação genética do corpo passariam de um estado estável para um estado instável em determinado momento da vida. E a maioria das espécies estaria vivendo perigosamente perto da fronteira entre essas duas fases.
Um marcador visível da proximidade da morte. O pesquisador Michael Rera, da Universidade Paris Cité, apresentou um modelo em duas fases baseado em um fenômeno curioso: moscas que desenvolvem permeabilidade intestinal mudam de cor, ficando azuladas, pouco antes de morrer. Esse estado, chamado de estado Smurf, sugere que o envelhecimento não é um processo contínuo e gradual, mas pode ter pontos críticos de transição que a física é capaz de identificar.
O papel da inteligência artificial
A inteligência artificial ocupou um lugar central na conferência. Uma sessão inteira foi dedicada a mostrar como os métodos computacionais estão redefinindo o estudo dos mecanismos do envelhecimento e acelerando a busca por intervenções geroprotetoras, ou seja, intervenções capazes de proteger o organismo dos efeitos do tempo.
A proposta é um ciclo virtuoso: os modelos físicos orientam os experimentos, e os dados dos experimentos refinam os modelos. Como resumiu um dos painéis, a física prevê, a biologia valida e a informática unifica.
Do modelo para a vida real
É claro que a Gerofísica ainda está no começo, e os próprios pesquisadores reconhecem os limites. A pesquisadora Beatrice Arosio, da Universidade de Milão, avalia que os conceitos da física podem enriquecer a interpretação do envelhecimento, mas dificilmente substituirão a avaliação geriátrica multidimensional. Eles podem, no entanto, se tornar ferramentas complementares para identificar precocemente o risco de fragilidade ou de perda funcional.
O pesquisador Guido Sanguinetti, da Escola Internacional de Estudos Avançados da Itália, aponta outra limitação: os modelos costumam partir do pressuposto de que os sistemas são compostos por partes idênticas, o que não acontece nos sistemas biológicos. Cada pessoa envelhece de um jeito, influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.
O desafio do futuro, na visão dos cientistas, será integrar as leis gerais propostas pela Gerofísica com a visão personalizada e multidimensional da geriatria.
O que isso muda para nós?
Talvez você esteja se perguntando: o que uma conferência de físicos em Singapura tem a ver com a minha vida?
Tudo, se pensarmos bem.
Se o envelhecimento segue leis que podem ser compreendidas e previstas, então ele deixa de ser um mistério incontrolável e passa a ser um processo que a ciência pode estudar, antecipar e, quem sabe, modificar. Isso reforça algo que este blog defende há anos: o envelhecimento não é uma sentença. Não é uma contagem regressiva uniforme, igual para todos. É um processo complexo, cheio de variações, que depende de muito mais do que o número de velas no bolo.
E isso tem consequências diretas para o combate ao etarismo. Se a ciência demonstra que as pessoas envelhecem de formas profundamente diferentes, que o declínio não é linear e que existem pontos críticos de transição que podem ser identificados e talvez evitados, então os estereótipos que associam idade a incapacidade perdem ainda mais sustentação.
Para as organizações, a mensagem também é relevante. Se o envelhecimento é um processo físico com leis próprias, a experiência acumulada ao longo de décadas é um patrimônio que não se desgasta da forma como se supõe. O repertório de um profissional maduro, sua capacidade de julgamento e sua resiliência diante de situações complexas são ativos que a ciência do envelhecimento, cada vez mais, ajuda a valorizar.
O começo de algo promissor
A Gerofísica está dando os primeiros passos. Os próprios pesquisadores dizem que estamos diante do início de algo potencialmente interessante, que só poderá ser incorporado à prática clínica quando produzir aplicações concretas.
Mas a direção é clara. A ciência está nos dizendo que o envelhecimento não é apenas uma questão de biologia, mas também de física. Que existem leis a descobrir, modelos a construir e transições a antecipar.
E que, enquanto isso acontece, cada pessoa com 50, 60, 70 ou 80 anos carrega em si um processo que a ciência ainda está aprendendo a decifrar. Um processo que, como a física nos ensina, pode ser compreendido. E o que pode ser compreendido, pode ser transformado.
Fran Winandy, Arquitetura do Capital Geracional