
Princesas não envelhecem: elas performam
Março se aproxima e, com ele, voltam as campanhas que exaltam as lideranças femininas. É justamente nesse momento que eu penso naquela menina que nasceu depois de três homens, cercada de expectativas e chamada de “princesinha da casa”.
Ao mesmo tempo em que ser a desejada era lindo, ser perfeita era obrigatório. E, de muitas formas, continua sendo.
No Brasil, apenas 38% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, número que diminui com o avanço da idade. Entre as executivas, mais de 70% relatam já ter vivido a síndrome da impostora em algum momento da carreira. Isso não é sobre falta de competência. É sobre excesso de régua, ou, como dizem alguns, a altura do sarrafo, quando os padrões ficam difíceis de alcançar.
No país onde as mulheres têm maior nível educacional que os homens, elas ainda precisam sustentar, todos os dias, a própria legitimidade.
O preço para ser a “executiva segura”
Eu aprendi cedo a merecer: a fala preparada para não deixar brechas, o estudo para sustentar o discurso e, muitas vezes, até a roupa como estratégia.
Impecável, quase sempre. Cansada, sempre.
No mundo corporativo isso é motivo de elogio: “profissional segura”, “liderança pronta”, “executiva inspiradora”.
Mas pouca gente percebe o que existe por trás. O custo emocional da alta performance, já que a régua sobe junto com o cargo, com a exposição e com a credibilidade.
Enquanto isso, a autoconfiança vai sendo construída ( ou minada) em silêncio, um dia de cada vez. Muitas mulheres chegam à liderança sem jamais terem se sentido, de fato, autorizadas a ocupar esse lugar.
O mês da mulher trazendo a prova de que o poder real é ilusório
Há algo de simbólico nisso. Em março, multiplicam-se os painéis sobre presença feminina nos boards, as metas de diversidade e os programas que celebram a mulher no mercado de trabalho, mas pouca gente percebe o que está por trás.
Tudo necessário. Mas ainda insuficiente.
Porque, no mesmo movimento, chegam os convites para falar sem remuneração. Os elogios vêm desacompanhados de poder real. A visibilidade aparece sem orçamento, sem cadeira na mesa, sem decisão.
Princesas aplaudidas, mas ainda descalças para entrar no baile.
Excelência fruto da exaustão
Ninguém mede nas organizações o custo emocional de sustentar a própria legitimidade. Quantas líderes ainda operam em modo de hipercompensação? Quantas confundem excelência com exaustão?
Eu reconheço essa dinâmica nas mentorias, nas conversas com executivas e nas salas onde diversidade etária e equidade de gênero se encontram e a performance continua sendo o idioma dominante. Talvez porque essa história não seja apenas de pesquisa e escuta. Em muitos momentos, ela também é minha.
Não é falta de capacidade. É excesso de condição para pertencer.
Performar sem falhar. Cuidar sem pesar. Liderar sem endurecer. Envelhecer sem aparentar.
Pedágio histórico para pertencer
Isso não é excelência. É um pedágio histórico para permanecer na mesa: a versão corporativa da antiga menina perfeita, a “princesinha do lar”.
Talvez envelhecer seja sair desse personagem. Não provar o tempo todo. Não sustentar tudo.
E descobrir que relevância não precisa mais vir da perfeição.
Isso não cabe em campanha de março.
A mulher madura não quer performar juventude
Talvez porque a mulher madura ainda desorganize o sistema: ela não quer mais pedir licença, não quer performar juventude, nem negociar sua legitimidade com excesso de entrega.
Ela opera com repertório.
A pergunta que fica é: as empresas estão preparadas para essa potência — ou ainda só conseguem aplaudir princesas?
Diversidade não é só sentar à mesa. É o reconhecimento real de quem já construiu história suficiente para não precisar provar mais nada.