
Imagem gerada por I.A.
Escreva a história que gostaria que contassem sobre você
Você já parou para pensar se a vida que vive hoje está alinhada com a vida que gostaria de ter vivido?
Atualmente, entre boletos, metas, redes sociais e comparações constantes, é fácil perder o fio do essencial. Afinal, o que realmente vai importar quando o tempo fizer a sua própria curadoria?
É nesse ponto que Morgan Housel, em 𝘈 𝘈𝘳𝘵𝘦 𝘥𝘦 𝘎𝘢𝘴𝘵𝘢𝘳 𝘋𝘪𝘯𝘩𝘦𝘪𝘳𝘰, propõe um exercício desconcertante: escrever o que ele chama de “obituário reverso”.
Em outras palavras, trata-se de inverter a lógica tradicional do planejamento financeiro e começar pelo fim.
A ideia é simples — e profunda: escreva a história que gostaria que contassem sobre você.
Depois, viva — e gaste — de acordo com isso.
O obituário como bússola
Mas atenção: o “obituário reverso” não é sobre morte.
É sobre direção.
Ele começa com uma pergunta simples — e profundamente incômoda:
como você quer ser lembrado?
Algo como:
- Ela tinha um carro impressionante.
- Morava no endereço mais exclusivo, com vista para a cidade inteira.
- Era uma grande colecionadora de bolsas de grife.
- Conheceu os restaurantes mais estrelados do país.
- Mediu o tempo com precisão suíça: só usava os melhores relógios.
Percebe?
Nada disso é errado. Mas é isso que sustenta uma memória? É isso que atravessa gerações?
Eu arrisco dizer que, ao ler essas frases, algo em você respondeu silenciosamente:
“Não… não é isso.”
Qual é a narrativa que queremos?
Qual é, afinal, a narrativa que queremos?
Porque, no fundo, aquilo que desejamos — quase sempre — soa diferente:
- Tinha o raro talento de fazer as pessoas se sentirem vistas.
- Não guardou seus dons na prateleira: compartilhou, ensinou, multiplicou.
- Carregava a sabedoria de quem viveu — e a leveza de quem nunca perdeu o humor.
- Deu raízes firmes e, ao mesmo tempo, ensinou a voar.
- Provocou sua indústria a ser mais corajosa, mais inclusiva, mais humana.
- Plantou sementes que continuam florescendo, mesmo na sua ausência.
Se isto é o que gostaríamos de ler, a pergunta que fica é:
o que estamos fazendo hoje — nas escolhas, no tempo e no dinheiro — para merecer essa narrativa?
Dinheiro como ferramenta — ou como distração?
O ponto central do obituário reverso é brutalmente prático:
Ao definir a memória que deseja construir, você ganha um critério poderoso para decidir onde — e por que — colocar seu dinheiro.
Mas essa lógica carrega uma pergunta ainda mais profunda, que raramente fazemos com honestidade:
qual é a vida que você quer viver?
Dependendo da resposta, o dinheiro muda de papel.
Ele deixa de ser instrumento de comparação e passa a ser instrumento de construção.
Morgan Housel chama de “social junk food” a busca por status imediato — aquela atenção rápida, vazia e passageira que vem da ostentação. É como açúcar social: dá pico, mas não nutre.
Já quando investimos em relações, saúde, aprendizado, experiências significativas e autonomia, o retorno é diferente. Não aparece necessariamente no feed. Não gera aplauso instantâneo. Mas constrói algo que permanece.
Talvez a pergunta não seja quanto você ganha ou quanto você gasta.
A pergunta correta seria se o seu dinheiro está financiando o legado que você quer deixar — ou apenas distraindo você dele?
Alinhamento entre valores e gastos
O exercício do obituário reverso funciona como um filtro incômodo — e extremamente lúcido:
- Este gasto constrói a história que eu quero que contem sobre mim?
- Fortalece vínculos que importam?
- Amplia minha autonomia?
- Gera impacto real — ou só rende aplausos rápidos?
Quando o destino está claro, o dinheiro ganha direção.
As escolhas deixam de ser reativas e passam a ser intencionais.
Isso não significa viver com escassez ou culpa.
Significa viver com critério.
Porque, no fim, não é sobre gastar menos.
É sobre gastar melhor — alinhado com a narrativa que você quer construir.
Um convite simples (e difícil)
Experimente escrever, em uma página:
“Aqui jaz alguém que…”
Sem ironia. Sem modéstia defensiva. Sem performance.
Depois, pergunte-se:
Minhas escolhas estão coerentes com isso?
Porque, no fim, o dinheiro é neutro.
Ele só revela prioridades.
Amplifica o que já somos e acelera a direção que escolhemos.
O obituário reverso é, em essência, um lembrete elegante:
o dinheiro deve servir aos seus valores — nunca substituí-los.
Fran Winandy, especialista em Diversidade Etária/ Geracional, Etarismo e Longevidade Corporativa.