Reunião de equipe multigeracional

Diversidade etária nos conselhos de administração

Por muito tempo, conselho de administração foi quase sinônimo de senioridade.
Mas o mundo mudou. Experiência continua importando. Juventude também. O problema começa quando só uma delas manda na mesa.

A discussão sobre diversidade etária nos conselhos de administração ganha força à medida que empresas percebem os limites de decisões tomadas a partir de visões homogêneas.

Hoje, a idade média dos conselheiros no Brasil gira em torno de 58,5 anos. As novas nomeações mostram uma leve queda, sinalizando uma renovação geracional lenta, mas inevitável.

A pergunta que se impõe é direta: conselhos multigeracionais geram, de fato, uma vantagem competitiva?

Quando todo mundo pensa parecido, o risco aumenta

Conselhos formados majoritariamente por pessoas da mesma faixa etária tendem a compartilhar repertórios e referências culturais semelhantes — e, com frequência, os mesmos vieses. Isso não esvazia o valor da experiência acumulada, mas pode empobrecer o debate e estreitar o horizonte das decisões estratégicas.

Já conselhos multigeracionais se estruturam a partir de um repertório mais amplo, no qual experiência, leitura setorial, domínio de novas ferramentas e sensibilidade às transformações culturais se combinam. O resultado é um debate mais qualificado e uma menor propensão a decisões previsíveis.

Diversidade etária nos conselhos: o que os dados mostram

Um estudo recente analisou o desempenho das ações das 1.000 maiores empresas de capital aberto dos Estados Unidos entre 2017 e 2023 e chegou a um dado difícil de ignorar: empresas com maior variação de idade em seus conselhos apresentaram os melhores retornos anualizados. Já aquelas com conselhos etariamente homogêneos tiveram os desempenhos mais fracos.

Esse padrão apareceu na maioria dos setores — mas foi especialmente forte em áreas intensivas em inovação, como tecnologia e saúde. Mesmo quando os pesquisadores controlaram fatores como empresas lideradas por fundadores ou não, a diversidade etária continuou fazendo diferença.

Importante destacar: o estudo não defende trocar experiência por juventude, nem preencher conselhos com pessoas despreparadas só para “equilibrar idade”. As qualificações continuam sendo centrais.

O ponto é outro: conselhos multigeracionais performaram melhor do que conselhos monogeracionais.

Então por que isso ainda não virou regra?

Apesar do acúmulo crescente de evidências, diversidade etária ainda não aparece de forma clara em códigos de governança ou regulações formais. O tema segue tratado como secundário — quando não invisível.

Enquanto gênero, raça e outros marcadores avançam (com razão), idade continua sendo o preconceito silencioso da governança corporativa.

Chamar tudo de etarismo empobrece o debate

Um ponto sensível — e pouco confortável — precisa entrar nessa conversa.

Quando líderes seniores não acompanham novas linguagens, práticas de trabalho e dinâmicas organizacionais, há o risco de interpretar qualquer exclusão apenas como preconceito etário. Em alguns casos, existe sim uma desconexão real que precisa ser endereçada.

Isso não diminui o problema do etarismo. Pelo contrário: ignorar essa nuance só reforça dinâmicas de exclusão — de ambos os lados.

O que muda na governança

Muda o entendimento de valor: a experiência continua sendo essencial. Mas, sozinha, já não basta.
Governança forte hoje exige atualização contínua, abertura ao diferente, colaboração entre gerações e diversidade cognitiva real.

Conselhos multigeracionais não enfraquecem decisões. Eles complexificam — no melhor sentido da palavra.

E em um mundo mais complexo, pensar igual deixou de ser sinônimo de segurança.

Então, quem falta na mesa do conselho?

Talvez a pergunta não seja apenas quem está ficando de fora, mas quais perspectivas seguem ausentes. Conselhos multigeracionais não substituem experiência nem romantizam juventude. Eles ampliam o campo de visão, reduzem vieses invisíveis e tornam a governança mais aderente ao mundo real — diverso, dinâmico e intergeracional.

Em um cenário de transformações aceleradas, ampliar a diversidade etária nos conselhos deixou de ser pauta simbólica para se tornar uma decisão estratégica de governança.

Afinal, quando o conselho reflete o passado, quem responde pelo futuro?